Por que eu não recomendo Cisco ASR100x-X para novos projetos em 2026

De tempos em tempos recebo uma pergunta muito parecida de provedores e profissionais de redes:

"Paulo, encontrei um Cisco ASR1001-X por um preço excelente. Vale a pena comprar?"

Minha resposta costuma gerar polêmica:

Para novos projetos em 2026, normalmente não é minha primeira recomendação.

Antes que alguém interprete isso de forma errada, é importante esclarecer uma coisa: este artigo não é um ataque à Cisco e nem significa que o ASR1001-X seja um equipamento ruim.

Muito pelo contrário.

O ASR1001-X foi uma das plataformas mais importantes da Cisco para provedores de pequeno e médio porte durante muitos anos. Entregou excelente desempenho, estabilidade e recursos que ajudaram a construir inúmeras redes pelo Brasil.

O problema não é o equipamento.

O problema é o momento em que estamos tomando a decisão de investir.

O que mudou?

Em infraestrutura de redes, recomendações técnicas não são permanentes.

O mercado evolui.

Novas plataformas surgem.

Fabricantes encerram ciclos de suporte.

O custo-benefício muda.

Uma recomendação feita em 2024 ou 2025 não necessariamente será a mesma em 2026.

E isso é absolutamente normal.

Quando avalio uma plataforma para um cliente, não penso apenas se ela funciona hoje.

Penso se ela continuará sendo uma decisão sensata pelos próximos anos.

O primeiro problema: End of Life (EOL)

Quando um equipamento entra em End of Life (EOL), algumas consequências começam a aparecer:

  • Encerramento do desenvolvimento da plataforma;
  • Correções de bugs cada vez mais limitadas;
  • Fim das atualizações de segurança;
  • Encerramento do suporte oficial;
  • Maior dificuldade para obtenção de peças;
  • Maior dependência do mercado de usados.

Muitos provedores analisam apenas o valor de compra.

Eu procuro analisar o risco operacional dos próximos cinco anos.

São coisas completamente diferentes.

E o ASR1001 e ASR1002 sem o "X"?

Nesse ponto minha posição é ainda mais conservadora.

Hoje eu não recomendaria iniciar novos projetos utilizando ASR1001 ou ASR1002 da primeira geração.

Mesmo funcionando perfeitamente, são plataformas ainda mais antigas e com limitações significativas quando comparadas às versões posteriores.

Se alguém realmente pretende investir em Cisco usada para borda de ISP, considero o ASR1001-X ou ASR1002-X o mínimo aceitável dentro dessa família.

As versões sem o "X", na minha opinião, já deveriam estar fora da lista de opções para novos investimentos.

"Mas Paulo, você mesmo me recomendou um ASR1001-X..."

Sim.

E essa é uma observação justa.

Alguns clientes receberam exatamente essa recomendação da minha parte.

Mas existe um contexto importante.

Em muitos desses casos, o cliente já havia decidido utilizar Cisco e possuía um orçamento limitado para aquisição de equipamentos.

Diante desse cenário, minha orientação foi:

Se a decisão é permanecer em Cisco, então pelo menos evite investir em plataformas ainda mais antigas e escolha um ASR1001-X ou ASR1002-X.

Ou seja, a recomendação não era:

"Este é o melhor equipamento disponível."

A recomendação era:

"Dentro das opções disponíveis para sua realidade, este é o caminho menos arriscado."

Além disso, muitas dessas recomendações foram feitas até 2025.

Em 2026, o cenário já começa a mudar.

O tempo passa para todos os fabricantes.

Inclusive para a Cisco.

Segurança não pode ser ignorada

Outro fator importante são as vulnerabilidades de software.

Toda plataforma acumula CVEs ao longo dos anos.

Cisco, Huawei, Juniper, Nokia, MikroTik, Linux e praticamente qualquer sistema operacional existente.

O problema não é a existência de CVEs.

O problema é quando uma plataforma deixa de receber correções.

Quanto mais próximo do fim do ciclo de vida, maior a responsabilidade do operador em conviver com riscos que podem não ter correção futura disponível.

Por esse motivo, segurança deve fazer parte da decisão de investimento.

Não apenas desempenho e preço.

O custo que ninguém coloca na planilha

Quando um ASR1001-X aparece por um valor atraente no mercado de usados, muitos enxergam apenas a economia inicial.

Poucos calculam:

  • Risco de falha de hardware;
  • Disponibilidade de peças;
  • Ausência de garantia;
  • Licenciamento;
  • Tempo de indisponibilidade em caso de defeito;
  • Custo operacional ao longo dos próximos anos.

É comum uma solução aparentemente barata se tornar mais cara quando analisamos todo o ciclo de vida.

Dependendo do porte do provedor, existem alternativas melhores

Nem todo ISP precisa de um roteador proprietário.

Para muitos provedores pequenos e médios, soluções modernas baseadas em software podem oferecer melhor relação entre custo, desempenho e flexibilidade.

Plataformas como VyOS e outras soluções open source executadas em servidores x86 bem dimensionados podem atender perfeitamente funções como:

  • BGP;
  • IPv6;
  • CGNAT;
  • MPLS;
  • PPPoE;
  • Roteamento avançado.

Além disso, permitem maior flexibilidade de expansão e substituição de hardware.

E quando o provedor cresce?

À medida que a operação cresce, a realidade muda.

Quando falamos de milhares de assinantes, múltiplos links de trânsito, grandes volumes de tráfego e requisitos mais rigorosos de disponibilidade, normalmente passamos a avaliar plataformas carrier-grade dedicadas.

Nesses cenários, uma das plataformas que frequentemente analisamos é a família Huawei NE8000, além de outras soluções de mercado dependendo do orçamento e dos requisitos do projeto.

Não existe fabricante perfeito.

Existe a solução adequada para cada fase da rede.

Então vocês não trabalham com Cisco?

Claro que trabalhamos.

Configuramos, implantamos e prestamos consultoria em ambientes Cisco regularmente.

Se um cliente decidir utilizar um ASR1001-X, um ASR1002-X ou qualquer outra plataforma Cisco, isso não representa problema algum.

Nosso papel não é vender fabricante.

Nosso papel é apresentar os riscos, vantagens, limitações e alternativas disponíveis.

A decisão final sempre pertence ao cliente.

Uma observação importante

Este artigo é direcionado principalmente para novos investimentos realizados em 2026.

Ele não significa que todo ASR1001-X em produção deve ser substituído imediatamente.

Se o equipamento está estável, atende à demanda, possui redundância adequada e os riscos são conhecidos pelo operador, sua continuidade pode ser perfeitamente justificável.

Existe uma diferença enorme entre:

  • Manter um equipamento que já está operando com sucesso;
  • Investir dinheiro novo em uma plataforma cujo ciclo de vida já terminou.

São decisões completamente diferentes.

Conclusão

Comprar um equipamento EOL não é necessariamente um erro.

Comprar um equipamento EOL sem compreender os riscos envolvidos, porém, pode ser.

Ao recomendar uma solução para um cliente, procuro olhar além do preço de aquisição.

Suporte, segurança, disponibilidade futura, capacidade de expansão e ciclo de vida são fatores tão importantes quanto desempenho.

Por esse motivo, para novos projetos iniciados em 2026, normalmente prefiro avaliar primeiro soluções mais atuais — sejam elas baseadas em software ou plataformas carrier-grade modernas — antes de recomendar a aquisição de um Cisco ASR1001-X.

A tecnologia evolui.

As recomendações técnicas também devem evoluir.

Na Levelplus, não escolhemos fabricantes por preferência pessoal. Escolhemos a solução que oferece o melhor equilíbrio entre suporte, segurança, custo, disponibilidade e expectativa de vida útil para cada projeto.